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Hall da Fama # 1 – Rodrigo Ribeiro - A patada atômica

   

Ele tinha um chute muito forte, a ponto de marcar gol antes do meio da quadra. Mais do que isso, o capitão do Joga 13 foi um dos zagueiros mais técnicos que o Chuteira de Ouro já testemunhou

A garoa era intensa naquele sábado à tarde do dia 17 de outubro de 2009, e a quadra 4 do Playball Pompeia recebia o confronto entre Fúria e Joga 13, válido pela 5a rodada da fase de classificação do VIII Chuteira de Ouro. A garoa se transformara em chuva. O gramado, encharcado, era propício para chutes fortes e até de longe. O placar apontava vitória parcial do 13, gol de Alemão. De repente, falta atrás da linha divisória da quadra.
 
Rodrigo, capitão e zagueiro do Joga 13, como de costume, encarregou-se da cobrança. O goleiro Danilão (hoje no Acidus) era novato no Chuteira e não conhecia a fama da potência do batedor. Era de muito longe, acabou não armando barreira. Mal sabia ele que acabaria entrando para a história, assim como entrou o goleiro Andrada ao sofrer o milésimo tento de Pelé. Isso porque Danilão participou de “um dos gols de bola parada mais bonitos da história do Chuteira”, conforme palavras do repórter Guilherme Meireles à época (leia aqui).
 
O chute forte de perna direita acabou fazendo a bola morrer no ângulo direito. Um belo gol, perpetuando aquele que viraria uma lenda dos primórdios chuteirenses: Rodrigo e sua “patada atômica”. O apelido, “emprestado” do tricampeão do mundo Roberto Rivellino, serve bem para o eterno camisa 4 do Joga 13, já que o zagueiro era tido como o chute mais forte que o Chuteira já vira até então. Ele surgiu logo na primeira participação do 13 no Chuteira, na 3ª edição. Tem um gol dele que ficou eternizado na semifinal ante o SNG pelo III Chuteira de Ouro (veja o gol aqui). Filmou-se o chute, nascia a lenda. Forte, musculoso, Rodrigo punha nas pernas jeito e força para transformar cobranças de falta em verdadeiro paredão de fuzilamento àqueles na barreira ou mesmo goleiros.

A vida de Rodrigo Ribeiro sempre foi o futebol. Amante do esporte bretão, dedica-se até hoje a acompanhar a modalidade, seja no campo ou nas quadras. E jamais se esquece do tempo em que defendeu as cores amarela e preta do seu time de coração quando se trata de futebol society amador.
 
Amigo, e então vizinho, de Baru Matos (manager da franquia Roleta Russa), o “Patada Atômica” começou no Chuteira jogando justamente pelo Roleta Russa, lá na 2ª edição, em 2006. Porém, ficou um semestre, tempo suficiente para, junto a seu irmão Rafinha e um amigo deste, Daniel, resolver montar seu próprio time de amigos dos bairros da Lapa e Vila Ipojuca. Assim nascia a tal camisa amarela e preta, da qual passou a ser um dos líderes. A partir de 2007 passou a desafiar as equipes que então lideravam as bolsas de apostas.
 
 
“Fizemos o uniforme que lembrava o Peñarol e entramos firmes para ganhar títulos. O início foi muito bom. Tínhamos uma base que era Caieras (hoje no SNG), eu e Guma, o Doce, Choco, Lele (hoje manager do Morada Choque e maior artilheiro da história do Chuteira), Fino, Zóio, Bruninho, André Nêgo, meu irmão. O time em si era muito bom. (Os adversários) não esperavam que fôssemos tão fortes”, cita rapidamente de cabeça.
 
Mostrando um poderio ofensivo fulminante e uma defesa sólida, o Joga 13 surgiu como uma das grandes forças no momento que o Chuteira se expandia, com a chegada de times como Melville Power, Fiorella e o algoz SNG. “Times que batiam de frente com a gente era o Acidus, time bom com o Gallego no gol, Robinho, Barata. Mas o maior rival era o SNG. O nível deles era muito alto na época. Allan na zaga, Sampa no gol, Renê, Tejeda, Memé, time muito forte”, relembra o zagueiro.
 
De fato, o tricampeão da Ouro seria “a pedra no sapato” do Joga 13 e de Rodrigo. Aliás, uma das maiores frustrações na vida do eterno camisa 4 foi jamais ter disputado uma decisão de Série Ouro. Chegou a bater na trave algumas vezes, quando caíram nas semifinais.
 
“Chegamos a várias semifinais. Não foi apenas uma. Perdemos para o SNG, pro Kadência (que inclusive era time de amigos meus e ainda foi o campeão no semestre que nos eliminaram). Nunca disputei uma decisão de Ouro. Muitas vezes jogamos até melhor do que o adversário, mas não conseguíamos avançar. Foi frustrante”.
 
De fato, o Joga 13 chegou a quatro semifinais consecutivas e perdeu todas. Da 3ª à 6ª edição, saiu derrotado por SNG, Acidus, Melville e Kadência. Depois disso, teve uma eliminação em oitavas de final para o SNG (VII Chuteira) e outra para o Arouca (VIII). No IX Chuteira, nas quartas, vencia o então bicampeão Bengalas por 3 x 0 e conseguiu sofrer o empate e ser eliminado no gol de ouro. Era a chance de uma final ante o SNG, tão esperada desde o nascimento das equipes.
 
Contudo, o desencanto de não ter disputado uma decisão dourada não é comparada com a fase mais dolorida para Rodrigo dentro do Chuteira. “Não gosto nem de comentar”, desabafa o zagueiro ao se recordar. No dia 20 de novembro de 2010, o Joga 13 caía para a Série Prata pela primeira vez em sua história. A partir dali, tanto o time quanto Rodrigo começaram a ensaiar o adeus à Liga.
 
“Disputar a Prata, pra mim, foi uma vergonha, devido ao nosso time ser muito bom. Mesmo sem nunca termos vencido uma Ouro, sempre estávamos lá em cima, lutando, brigando, íamos pros mata-matas. Foi decepcionante”, admite.
 

Após 4 anos, o tradicional Joga 13 mudava de divisão, e o ânimo de seus líderes já não era o mesmo. Os principais nomes deixaram a equipe (Lele, Guma, o próprio Rodrigo) e uma reformulação se deu no 13. Rodrigo foi procurar novos ares dentro do Chuteira, na Série Ouro. Jogar a Prata era angustiante para o seu alto índice de competitividade e exigência. Acabou no Fora de Série a convite de Clebão e Rica. Porém, sua passagem foi apagada, sem o mesmo brilho de antigamente. Para piorar, nada pode fazer para evitar outro rebaixamento. Em menos de um ano, era a segunda vez que Rodrigo caía de divisão.
 
“No Fora não deu muito certo. Não pelo pessoal, que era muito legal, mas porque entrei e o time caiu de divisão. Aí comecei a desanimar mesmo. Pô, já tinha caído com o 13, e agora cair com o Fora de Série também? Aí vem aquele peso na consciência, o pensamento ‘o que que eu tô fazendo?’”. Foi a deixa para o retorno às origens.
 
Nesse ínterim, Rafinha e Daniel assumiram o comando e remontaram o 13. Trouxeram jogadores de confiança e que pudessem agregar. Disputaram a Prata sem o mesmo ímpeto de Série Ouro. Afinal, o time já não era o mesmo também. Foi apenas na terceira tentativa – quando justamente Lele e Rodrigo voltaram a vestir o manto aurinegro – que o time conseguiu o acesso (VII Chuteira de Prata), e foi da melhor maneira possível – sendo campeões ao derrotar o ascendente My Balls. Apesar do triunfo, Rodrigo é exigente: “Sem desmerecer a Série Prata, que foi muito difícil de ganhar, mas a mim faltou conquistar uma Ouro. Não tem comparação”.
 
Entretanto, olhando hoje para o passado, se o time não desmoronou quando do rebaixamento foi por orgulho de jogar e voltar à divisão da qual não deveria ter saído. Tanto que voltou para acabar, como se o orgulho só deixasse que o fim fosse decretado no mesmo patamar em que começou. No torneio da volta, o XIV Chuteira de Ouro, fez campanha mediana (4v, 1e 4d) e classificou-se em 6º lugar. Nas oitavas, caiu para o Primatas por 4 x 3. Era o fim. Mas por quê?
 
“Tinha gente que não pagava ou pagava pela metade. Isso começou a criar um atrito com o grupo. O pessoal também gostava de sair, sabendo que tinha jogo importante aos sábados. Gostava de sair, beber demais. No início era uma maravilha, o time era redondinho, mas com o passar do tempo começaram esses negócios e eu passei a desanimar. Conversei com o Lele na época e a gente achou melhor parar mesmo, pois desse jeito não iria pra frente. A gente foi até onde pôde”, explica ele.
 
Time do Joga 13 que jogou a disputa do 3o. lugar ante o Fiorella no III Chuteira de Ouro

Ainda jogaria pelo Bacana, após receber convite de Marcelão, e no Morada Choque, para retomar a parceria com Lele. Só que a vida de Rodrigo no Chuteira estava terminando. “Não desmerecendo ninguém, mas minha cara sempre foi jogar no 13. Fiz o que pude por eles, mas não tem como comparar com minha passagem pelo 13”.
 
Tratando-se de Lele, Rodrigo é só elogios. Abertamente diz que, se não foi o melhor pivô que viu jogar, está entre os dois melhores. Outro atacante que o zagueiro-artilheiro destaca é Renê, do SNG. “Um dos mais difíceis de marcar. Nos conhecíamos, criamos até uma amizade no campeonato, mas muito difícil de marcar”, lembra.
 
Sobre os duelos com o SNG, dos maiores clássicos do Chuteira, a lembrança é de freguesia. “Na maioria das vezes perdemos para eles, em alguns casos achei até injusto, mas acontece”, resigna-se. Quando o assunto é habilidade individual, tinha um jogador em especial que gostava de enfrentar: Kuminha, até hoje um dos destaques do Roleta Russa Olímpico. “Muito bom jogador, canhoto habilidoso, rápido, rabiscava para os dois lados. E era contra ele. Não podia deixá-lo jogar, pois acabava com o jogo. Nível dele é muito bom”, rasga elogios.
 
O fim chegou, mas o legado de Rodrigo permanece. Capitão, zagueiro técnico e muitos gols marcados atuando em uma posição que deveria evitar tentos. Foi campeão da 7ª edição da Série Prata e bicampeão do Festival Bola na Rede (I e II). Além disso, entrou também para a história pelo apelido que ganhou – a patada atômica que soltava de longe e em faltas.
 
Rodrigo, Guma, Doce e Lele

Rodrigo gosta de enaltecer suas amizades. Diz que, além das rivalidades, fez grandes amigos nos anos que jogou o Chuteira. O carinho dos amigos é sentido tanto nos corredores do Playball quanto nas mídias sociais. “Zagueiraço”, “eterno capitão”, “melhor zagueiro do Chuteira” foram algumas palavras ditas por amigos sobre Rodrigo Ribeiro. A opinião de Lele a gente reproduz abaixo:
 
“Ele fazia muitos gols e ajudava o time. No Morada Choque jogou pouco. Ficava estressado, pois o time não era do nível que ele jogava. Depois começou a namorar e acabou desistindo, mas ele segurava a peteca fora de campo e, dentro, resolvia. Jogador que eu confio e, fora das quadras, é um irmão para mim”
 
Quando perguntado sobre o que faria de novo se pudesse voltar a 2007, foi taxativo:
 
“Manteria o time do 13 da época, todos juntos. Porém, tentaria mudar a forma de lidar, organizar, cobrar o time. Acho que muitas vezes faltei com respeito com os amigos. Ao invés de colocar o jogador para cima, eu xingava, colocava para baixo, pois ficava nervoso. Até hoje sou assim, preciso mudar. Até na brincadeira não admito perder. Mas, no geral, só tenho a agradecer”.
 
Antes de finalizar suas lembranças, o pacato Rodrigo fez outra importante autoanálise. Quando perguntado se era destaque pela técnica própria ou pelo conjunto do Joga 13, não hesitou. “Me destaquei mais pelo conjunto do Joga 13. Já começava lá atrás com o Caieiras, que estava em alto nível. E o meu parceiro de zaga, o Guma. Ele era mais físico, mais garra, o desarme dele era muito bom, e eu jogava mais na sobra. Lógico, tenho alguns defeitos que ainda não consegui corrigir, como subir de cabeça, isso é um carma em minha vida. Porém, num todo, foi o conjunto”.
 
O “Patada Atômica”, antes temido dentro de quadra por sua categoria no comando da zaga do 13, agora é reverenciado fora, na memória de um torneio que passou dos 10 anos. Rodrigo deixou as quadras e entrou para a história do Chuteira. Rodrigo é um hall da fama.