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Hall da Fama # 3 - Paulinho - O artilheiro de gelo

   

Quem conhece o artilheiro do VI Chuteira de Ouro fora de quadra sabe que, ostentando as camisas de Joga 13, Acidus, Fora de Série, SNG e, principalmente, do Kadência, foi o mesmo dentro das 4 linhas: calmo, pacato, frio, calculista e matador
 
Calmo, sereno, magro. Mais parece um intelectual que frequenta os cinemas da Rua Augusta aos sábados. Jamais se imaginaria, em uma primeira instância, que Paulo Henrique Rodrigues jogasse futebol society. Pois é. Ele não só foge dos estereótipos como vai além: é um dos maiores goleadores que o Chuteira de Ouro teve a honra de hospedar. Pode não ter sido o maior, mas foi certamente o mais frio diante do gol. Assim, construiu uma carreira vitoriosa, e saiu de um arquétipo para se transformar em lenda.
 
Paulinho Rodrigues é uma figura carismática ao seu jeito. Sua fala é mansa; seu jeito, pacato; seu coração, de ouro. É até triste dizer que parou de jogar as competições da Liga porque o corpo já não aguentava mais correr lado a lado com sua mente. Também, com pouco mais de 40 anos, já não tinha mais a explosão para acompanhar o ritmo intenso de uma partida cada vez mais voltada à força física e ao contato extremo em uma arena fadada a transformar heróis em vilões em um átimo de segundo.
 
Já se vão 3 anos de sua despedida dos gramados chuteirenses. Seu último time, o SNG, o fez sair de cena em alto nível. Não que tenha saído campeão, mas se aposentar em uma equipe lendária só faz aumentar sua importância dentro do cenário criado para alegrar as vidas dos futebolistas nas tardes de sábado.
 

Interessante também saber como chegou à competição: pelo Joga 13. Sim, a mesma turma famosa, com Guma, Doce, Choco, Rodrigo Ribeiro, Lele, entre outros. O time preto e amarelo, outro lendário chuteirense, abriu as portas para que Paulinho entrasse e desfilasse sua categoria e precisão. Entrou com o “bonde andando”, no IV Chuteira de Ouro, encontrando um grupo já formado – o que o caracterizou como um “reforço”, não uma “contratação”.
 
“O time já estava formado, aí entrei. Estava entrosado e comecei a jogar com eles. Já conhecia todo mundo, o Rodrigo (Ribeiro), o irmão dele, o Rafa. O Rodrigo principalmente, porque a gente já jogava juntos. Senti-me em casa, era todo mundo amigo”.
 
Sua estreia foi no dia 10 de novembro de 2007, na derrota do Joga 13 para o Só Lance por 4 x 3. A passagem de Paulinho pelo 13 foi rápida. Não marcou gols. Porém, seu destino já estava traçado para outro caminho: o Kadência. O grande responsável pela criação da equipe, que viraria o Mulekes posteriormente, foi o craque junto ao seu amigo Cássio. Como trabalhavam juntos, o então “trezeiro” passou a falar tanto do Chuteira ao camarada que o persuadiu sem fazer muito esforço.
 

Amante do futebol, e de jogar, tanto quanto Paulinho, Cássio e ele resolveram montar uma equipe para, ambos, descarregarem suas energias acumuladas na modalidade que aprendemos a amar. Paulinho conhecia uma galera, Cássio conhecia outro pessoal e: voilá Kadência!
 
“A gente decidiu montar o time para fazer parte dessa galera, encontrar o pessoal todo sábado. O Chuteira é isso: além de jogar é encontrar o pessoal, aquela resenha após os jogos, lembrar os lances”
 
Pronto, o atacante já estava fisgado pelo que o universo chuteirense proporcionava. Paulinho, em suas lembranças, disse ter se encantado logo de cara com a competição e a organização. Alto nível técnico de equipes como o próprio Joga 13, Acidus, Fiorella Brasil, Melville Power… E também com as matérias e entrevistas que eram feitas. De acordo com ele, “foi paixão à primeira vista pelo Chuteira”.
 
Na “nova casa”, Paulinho se sentiu mais à vontade ainda. Afinal, estava entre amigos mais do que nunca. Renato, Renan, Ivan, Julian, Luiz Eric e Pedrinho, além do próprio Paulinho, formavam a base do Kadência – até então a mais nova agremiação da ainda única divisão. O time estreou na 5a edição, chegando às quartas de final, quando foi goleado pelo Joga 13 por 9 x 2. Paulinho anotou 11 gols no certame (20 a menos que o artilheiro do torneio, Lele, do Joga 13). Porém, a temporada certeira do time, e do atacante, seria a seguinte: o VI Chuteira de Ouro.
 
Justamente nessa edição Kadência e Paulinho foram os destaques. Foram campeões derrubando, entre outros, Atlético Pagalanxe, Acidus, Joga 13 (indo à forra na revanche, na semifinal, ao vencer por 6 x 1) e o Estudiantes de la Vila, este na decisão. De quebra, Paulinho ainda foi o grande artilheiro, balançando as redes 25 vezes – sendo o último deles o gol de ouro, o gol do título na prorrogação. Com o título, o atacante fincava seu nome na história chuteirense. “Era um timaço o que montamos”, confessa.
 
“Foi inesquecível a conquista do título. Mesmo porque era um time novo, e já tinha equipes tradicionais. SNG, Acidus, Joga 13, entre outros, e a gente chegou e logo fomos campeões. Pô, hoje em dia, quem não quer ser campeão do Chuteira? Todo mundo sonha com isso”
 

A vitória fez o time ficar em evidência e ficar sendo a chamada 'bola da vez'. Tanto que, na defesa do título, o Kadência acabou fazendo uma primeira fase pífia, classificando-se apenas em sexto em sua chave e dando adeus ao bicampeonato já nas oitavas de final ante o Acidus. Paulinho anotou apenas 7 vezes, ficando muito atrás do artilheiro da edição (Ritolê, do Bengalas, com 23 gols). No VIII Chuteira de Ouro, o time parou novamente nas oitavas, em uma revanche da decisão da 6a edição, dessa vez vencida pelo Estudiantes; Paulinho anotou 10 tentos.
 
A queda do Kadência era natural. Por ter uma formação com jogadores em idade avançada era de se esperar um rendimento diferente do que fora apresentado justamente no semestre de estreia, quando chegou à semifinal, e no semestre seguinte, o do título. Na última participação do time, no IX Chuteira de Ouro, a equipe nem se classificou para o mata-mata, ficando apenas na oitava posição. Era o fim do Kadência, mas o início daquele que hoje conhecemos de cor e salteado: o Mulekes.
 
“O Leandrinho Caetano era amigo também, morava no mesmo prédio que o meu e jogava bola com a gente. Ele trouxe o Leco, o Gian, trouxe a molecada, e eu já não queria mais ficar organizando. Já estavam com bastante gente entre eles no time. Então, para não acabar, falei 'fica com o Kadência, você muda o nome se quiser'”
 
De herança do Kadência ao Mulekes ficou apenas o toque de bola, porque em nada se pareciam as equipes. Paulinho lembra que o campeão da sexta edição da Ouro começava sufocando os adversários mas depois perdia o fôlego na reta final de determinada partida. Mesmo assim, a mulekada deu continuidade ao trabalho iniciado pelo atacante e Cássio, honrando o que já virava tradição e transformando isso em uma potência do universo chuteirense.
 

O craque também recorda que o fim do Kadência se deu pela falta de paciência dele em gerenciar a equipe. Como era, além de jogador, o manager, não tinha mais o mesmo pique do início para comandar o elenco também fora de quadra. Seu principal problema era controlar os eventuais egos dentro das 4 linhas.
 
“Quando se gerencia um time, você não pode ter influência dentro de quadra. Gerenciar o time do lado de fora é uma coisa, pois todos estão no mesmo patamar. Lá dentro, começa a ter problema a partir do momento que não tem ninguém para trocar os jogadores etc. Então, essa figura não poderia ser eu, pois tomava conta do time e, para evitar comentários sobre eventuais 'panelas', sempre tentei colocar uma figura neutra mexendo no time”
 
Voltando à parte técnica, Paulinho revela que a maior dificuldade do Kadência era derrotar o Fiorella Brasil. Lembra que venceu algumas vezes o rival, mas em outras perdeu. Destaca a qualidade técnica do histórico adversário, mas também não deixa de ressaltar o potencial de outros times. “Só que o Fiorella era muito rápido, e eles eram muito entrosados”, sentencia Paulinho.
 
Com o surgimento do Mulekes, foi desfilar seu futebol com a camisa verde-limão do Acidus (abaixo). Convidado pelo então manager da equipe, Lucas P., trocou de ambiente e de companheiros de time. Como é boa praça, não teve dificuldades na adaptação. Em sua primeira temporada na nova agremiação anotou 12 gols, mas caiu nas oitavas de final ante o Med Taubaté. No semestre seguinte anotou 5 vezes, mas viu o histórico time cair de divisão.
 

A sorte inicial dentro do Chuteira viraria um fardo, pois, após cair com o Acidus, disputou novamente a Série Ouro, dessa vez com a camisa do Fora de Série. Com a camisa do Forão, Paulinho atuou pouco, muito em função de os líderes do elenco buscarem, à época, um pivô – característica que o atacante não tem. Marcou 3 vezes, mas novamente fez parte de um elenco que desceu de divisão.
 
“Troquei pelo desafio de jogar em outro time, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades. Joguei um Festival com o Fúria também. Foi por isso que mudei”
 
A frustração de cair duas vezes seguidas pesou para seu emocional. Com o Fora, recorda que o time precisava de uma vitória simples, na última rodada, ante o The Veras; nas próprias palavras, o time liderado por Pedro de Luna era encardido. “A gente ganhava por 1 x 0, aí o de Luna acertou um petardo do meio da quadra. Os caras viraram e fomos rebaixados. Sensação horrível”, recorda-se.
 
A última parada de Paulinho foi com a lendária camisa do SNG, onde jogou por dois semestres.
 
“No SNG não jogava lá frente como atacante. Atuava mais atrás, ajudando na marcação. Estava com 37 anos já. Corria mais pro time, eu diria. Quando você joga numa equipe, acaba percebendo qual é sua melhor função àquele momento”
 
Mesmo em uma função diferente, ajudou o tricampeão a chegar à semifinal do XIII Chuteira de Ouro, quando fora derrotado pelo Arouca – este que seria o campeão da edição. No semestre seguinte, o SNG parou nas oitavas de final para o Se Perder Que Se Foda. Ele atribui ao envelhecimento do elenco o fato de não ter levantado sua segunda taça.
 
“O time era bom, mas tinha uma idade mais avançada, e isso faz diferença. Você pegar um CAV ou um time de moleques pela frente é complicado, mas fiquei feliz de ter chegado à semifinal em uma das oportunidades”
 
O SNG foi a última parada de Paulinho no Chuteira de Ouro. A aposentadoria acabara de chegar. O saldo, positivo.
 

O atacante se destacou pelos gols, mas também pelo senso de ajuda aos times que passou. Ressalta: “Joguei atrás somente no SNG. Porém, o cara que joga na frente tem de voltar e ajudar na marcação, senão a equipe joga com um a menos”. Muito disso se deve ao equilíbrio ao qual sempre mostrou dentro das quatro linhas. Paulinho é de um jeito fora de quadra, mas também o mesmo dentro dela. Esse equilíbrio o transformou em um artilheiro calculista, frio no momento certo de arrematar ao gol, ao concluir uma jogada.
 
“Tem a questão de como se comportar em quadra, em pensar em uma jogada. Sou calmo fora tanto quanto estou jogando. Consigo conciliar os dois. Você joga pensando, procurando espaço. Tem a questão de ter calma na hora de procurar o caminho certo para um gol, achar o melhor posicionamento. Talvez essa seja a resposta para me manter calmo durante uma partida”
 
Porém, não pensem que Paulinho tinha moleza quando atuava no Chuteira de Ouro. A marcação sobre ele era intensa, e só conseguia anotar seus gols graças à sua habilidade. Cita como principais zagueiros que enfrentou o trezeiro Rodrigo Ribeiro, Lói e Raphão (ambos acidianos na época), mas aquele que lhe deu muita dor de cabeça era do Atlético Pagalanxe e, depois, eternizou-se na zaga do SNG: Léo.
 

Dentre os times que enfrentou, um em especial era seu predileto. Paulinho gostava de marcar gols quando o enfrentava. “Tenho de falar do Bacana, do meu amigo Marcelão. Era um time forte, que marcava duro, mas deixava jogar também. Só que eu me dava muito bem contra eles”, revela. Quanto ao gol mais importante, sem dúvida: o tento na morte súbita que deu o título ao Kadência sobre o Estudiantes de la Vila. “Não estava bem nesse dia. Só que o Julian disse 'você vai fazer o gol de ouro, você vai fazer o gol de ouro', e acho que isso me deu confiança. Numa jogada ensaiada em cobrança de falta a bola chegou a mim e eu meti de canhota no ângulo”, emociona-se o artilheiro.
 
Sobre continuar a jogar, o engenheiro de formação diz que não pretende parar tão cedo. Paulinho joga competições masters até hoje e diz que só para quando o corpo não aguentar mais. Aos mais novos, ele manda um conselho: jamais desistir de uma única jogada sequer.
 
Assim é Paulo Henrique Rodrigues, artilheiro nato com gelos nos pés que transitou pelos corredores do Chuteira com a mesma facilidade com a qual marcava seus gols. Talvez pelo seu jeito sossegado. Talvez pela frieza a concluir as jogadas a gol. Talvez pela solidariedade em quadra. Talvez pelo carisma de seus olhos azuis. Ou talvez, porque apareceu “do nada” e logo se tornou um dos maiores atacantes da história chuteirense, digno de ser um hall da fama. A única dúvida ao fazer este perfil: como e quando conheci você, Paulinho?